a paz sob os olhos de dois loucos...


















 
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Léo Muniz - Músico, estudante de Engenharia Eletrônica no CEFET/RJ Frederico Spada - Poeta, estudante de Letras na UFJF/MG




















 

Sábado, Dezembro 09, 2006
 
Há muito não voltava aqui, e a paz deste manifesto transformou-se em silêncio.

Trago, então, novos poemas para cá, que de alguma forma almejam ou retratam a mesma paz outrora tão versejada. A paz do riso roubado por uma espécie "torta" de vocação; a da reinvenção do respirar como uma passagem, uma libertação, uma vida nova, e a paz de ter o mar por sob os pés, como que a acariciá-los.

[Fred Spada]



INCLINAÇÃO

Nem só em pedras tropeço -
Também nas palavras
Que não meço.



PESSACH

Nas palavras
Me afogo -
E reinvento o respirar.



MANSIDÃO

Passear à beira d'água
Com o mar roçando os pés
Em ondas que vêm e vão
Ao bel prazer das marés.




Terça-feira, Julho 18, 2006
 
Brincar de infinitivo
(sem tempo por conjugar
ou gerúndio que nunca acaba):

A gramática dos sonhos
Só o que não quer
É regência.

Fred Spada



Quinta-feira, Março 02, 2006
 
Deveria haver mais que a página em branco. Onde o desejo de preenchê-la, acompanhando os meandros do discurso e seus mistérios?

Ao labirinto donde se não busca sair, chamam-lhe vida, e ao tempo cabe guiar-nos os passos, os olhares e os sonhos. Todo o mais é contingência: horizonte que cerra e instiga, sob o vôo rasteiro dos homens - pálpebras a bater como asas à procura da melhor corrente que nos impulsione ao alto; o pouso como encontro da presa que se caça diuturnamente, faminta a alma daquilo que lhe falta e a sustém.

Em branco. No vazio a ser completado, mora o anelo da permanência; no trabalho de preencher, a ostentação das virtudes; ao fim, o orgulho ingênuo da potência anímica. O que transborda, entretanto, e transbordará sempre, é a certeza da intermitência, que flui invisível à vista humana: só vemos o que de nós emana, espelho que se nos torna o que ao redor se encontra.

Em branco. Assim também se nos apresenta o futuro, livro aberto à espera da pena, vislumbre cujos devaneios - eternas reticências - exibem apenas uma paisagem impressionista daquilo que a alma sonha para si.

Há cor. Há cerne. Há plenitude. Alcança-os a poesia. O mais são apontamentos de uma filosofia indiferente à vida e ao que ela abarca.

Fred Spada



Quarta-feira, Novembro 09, 2005
 
pedagogia do olhar

: tactear palavras
recitar universos
para ver no ar
a poesia refratada
entre os homens

Fred Spada



Sexta-feira, Setembro 23, 2005
 
(DES)CONSERTO
(a Luana Barcelos)

desconstrua.
debalde o esforço
de fazer-se.
vale a decomposição
dos signos
dos sinais.
assim amplia-se o horizonte
do olhar
alarga-se a beleza
do sorriso
e o desafio que se vislumbra
passa a chamar-se
poesia.

Fred Spada



Sexta-feira, Agosto 05, 2005
 
Não é que me falte vontade de atualizar este espaço: faltam-me idéias. Não quero pôr aqui um velho poema, ou um texto que olhe apenas para meu umbigo. E nisso de querer um texto novo, acabo como aquele poema do Drummond, lá do "Alguma Poesia", de 1930, que começa assim: "Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever".

Tratar da paz é difícil, quer seja a paz psicológica, espiritual ou a sócio-política. Difícil também a maneira: prosa, poesia, dissertação, ficção, crônica. São muitos os ofícios das letras, e muitos os caminhos da paz, seus significados, sua ausência ou presença. E entre tudo isso, perder-se se faz num piscar d'olhos.

Para o indivíduo, a paz é sempre momentânea, tal qual a felicidade, e pode durar desde segundos a anos, a variar com a auto-estima e os altos e baixos da vida. Para uma sociedade, a paz pode durar dias, meses ou anos - mas hoje a paz tem-se transformado em artigo de luxo, e a moeda com que se lhe compra vai desde o dinheiro sujo que se quer lavado a vidas humanas que se transformam, afinal, em números que apenas serão lembrados - se o forem - nas estatísticas.

Como Leminski, também gostaria que tudo que dissesse virasse poesia. E gostaria de dizer da paz, da minha paz, da paz na Terra, não como uma ilusão ou uma utopia, mas como algo palpável. Enquanto isso não é possível, façamos ao menos com que a paz seja sempre buscada, esteja sempre em nossos horizontes, guiando-nos em nossa caminhada: a paz nos versos, nas canções, nos pequenos gestos - antes que se nos chegue a derradeira paz, a do ponto final.

Fred Spada



Quarta-feira, Maio 04, 2005
 
(a Samea Franklin Bonetti)

E por vezes o que a vida quer é nos testar, medir nossa paciência.
E por vezes fechar os olhos não basta, sonhar não adianta,
E qualquer sinal de paz não nos acalma.
Assim, o sorriso será apenas fingimento, e a lágrima, nossa única verdade.
Assim, qualquer felicidade parecerá marca de quadro retirado da parede -
Apenas saudade;
Qualquer tristeza, a companheira de todas as noites,
E a confissão de impotência, constatação de fraqueza.

Mas há-de vir o dia em que tomar as asas dos sonhos far-se-á real;
Em que trocar olhares tornar-se-á divisa d'alegrias;
Em que o sorriso será a palavra de carinho duma alma.

E, assim,
Talvez por vezes,
Ou por meses,
Há-de o amor falar mais alto,
Há-de a alegria contagiar-nos -
E a certeza de não estarmos sós há-de ter sido a responsável por tudo isso...

...

[e há-de haver paz, então; porém, como as coisas da vida, não será para sempre, embora possa ser eternizada na memória - esse jeito tão singular de fotografar sentimentos e os manter vivos conosco]

Fred Spada



Sexta-feira, Março 04, 2005
 
Dez coisas para fazer antes de morrer

1. Correr novamente como uma criança, a tactear cada pedacinho do universo.

2. Tocar a alma de uma palavra, de um poema.

3. Inventar uma palavra nova.

4. Guardar comigo cada sorriso sincero que me derem.

5. Estar sempre apaixonado, seja por uma pessoa, uma música, um poema...

6. Pegar estrada sem destino, seguindo a bússola do olhar ou a direção do vento.

7. Eternizar cada pôr-do-sol, cada amanhecer, cada estrela a iluminar as noites de verão.
8. Fotografar o paraíso.

9. Voar, ganhar asas.

10. Poder contar todas essas histórias...

... para, depois, quando morrer,
fazer-me ponto de tinta em folha alva:
renascer como poema -
apenas alma.

[Porque falar da paz é falar da vida, e só se está em paz com a vida quando se vive intensamente, aproveitando cada momento e aprendendo com cada experiência e com cada pessoa que cruza nosso caminho.]

Fred Spada



Domingo, Dezembro 12, 2004
 
O que se quer da Vida
(a Léo Muniz)

Talvez viver seja deixar pegadas,
marcar o caminho diário
que fazemos entre sonho e realidade.

Talvez viver seja construir castelos da mais alva areia,
que ao simples sopro de brisa
suplicam reconstrução.

Talvez viver seja reedificar,
diariamente,
a esperança na própria vida.

Talvez viver seja reconhecer o amor
cuja reciprocidade é manifesta
antes pelo olhar que pelo beijo de carinho.

Talvez viver seja enxergar a poesia
com que nos presenteia o mundo.

Talvez viver seja alcançar a paz ao final de tudo,
quando as forças já pareciam esgotar-se.

Fred Spada



Domingo, Setembro 12, 2004
 
Tem estado tudo tão pacífico comigo, que a inspiração para estas páginas há muito me deixou só. Tinha a idéia de um poema para este espaço, houvera até escolhido a epígrafe - um comentário aqui deixado por uma ex-professora, hoje amiga -, mas, porque minha escrita tem muito mais de inspiração que transpiração, deixo o quase-poema na gaveta e proponho algo diferente: manifestar a paz sem usar a palavra.

Como meu manifesto pela paz, deixo-vos o que penso ser uma imagem dela. Uma imagem da paz que preenche a alma, que encanta o olhar, que acalenta o coração. Porque, às vezes, é de silêncio que precisamos. Porque, às vezes, basta estar num lugar como esse para se saber o que é a paz, para descobrir o quão pequeno somos diante de tudo o que não construímos.

Fred Spada




Sexta-feira, Julho 16, 2004
 
Viver
(À Tatiana Corrêa)

Viver.
Viver é difícil.
E, definitivamente, não deveria ser fácil.

Sua vida é feita de fases.
Algumas felizes e bem resolvidas. Essas costumam passar rápido.
Outras conturbadas e tristes. Essas parecem nunca acabar.
Existem ainda aquelas que deslumbram por serem diferentes de tudo que já foi visto antes. Talvez essas sejam as mais perigosas.
Por isso, respeite-se.
Lembre-se de quem você era ontem.
Imagine o que você espera de si próprio amanhã.
E, então, procure equilíbrio em todos os aspectos da sua vida.
Principalmente entre a razão e a emoção.
Tente não deixar nenhum lado prevalecer. Isso pode lhe custar caro.

Nunca deixe de sonhar.
E faça de tudo para tornar seu sonho realidade.
Mesmo que ele não se concretize você perceberá que, de alguma forma, valeu a pena.
Quebre barreiras. Liberte-se de suas prisões. Enfrente seus conflitos.
Não fique esperando que nada se resolva sozinho.
Acredite na sua capacidade de mudar o mundo. Mas antes de querer mudar o mundo, mude a si próprio.
Não exija que os outros sejam como você é. Eles podem estar certos e você, errado.
Não inveje, admire.
Mas não espere que ninguém seja perfeito todos os dias.
Aceite os erros.
E nunca fuja, mesmo que dos erros dos outros. Isso é amor.
Em caso de arrependimento, dê uma segunda chance.
Dê uma terceira chance.
E até mesmo uma quarta, quinta ou sexta.

Apaixone-se todo dia. Surpreenda. Faça o hoje diferente de ontem.
E entenda que sua felicidade depende somente de suas próprias escolhas.
Portanto, saiba decidir, mas não deixe de ser indeciso.
A indecisão vai te fazer pensar bastante a respeito das conseqüências de seus atos.
Corra riscos. Mas aprenda a tirar proveito daqueles que se concretizarem.
Acumule experiências, nunca fracassos.
Descubra que sofrer faz parte da vida. Sofrer é crescer.
E você vai sofrer.
Vai se desesperar.
Mas, como em toda história, o tempo vai passar.
E tudo vai se ajeitar.
Lembre-se sempre de que nada é tão ruim que não possa piorar.
Persista. Pois se alguém é capaz, você também é.
E se ninguém é capaz, talvez você seja.
Desenvolva seus talentos e deixe-se entusiasmar com eles.
Entregue-se por completo e viva seus sentimentos. Seja sincero com eles, mesmo que isso possa ser perigoso ou dolorido. Afinal, eles são a sua verdade e através dela você vai encontrar o caminho de sua realização pessoal.
Realize-se. Mas saiba que sua vida é para os outros.
Pois você é a forma que eu encontrei de proclamar meu amor ao mundo.
A sua vida, com todas suas alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, é meu presente para aqueles que estão a sua volta.
E, por isso, se viver é tão difícil, eu te desafio à vida.

Léo Muniz



Quarta-feira, Maio 12, 2004
 
O nome que foi dado a este blog tem um peso a que às vezes não nos atentamos. Tratar da paz, manifestar o desejo por ela, propor meios de praticá-la, ou apenas falar da paz que há em nós - tudo isso é sério, traz consigo imensa responsabilidade. A paz não é algo que se vê numa vitrina e compra-se, não está na estante de supérfluos de algum supermercado. A paz conquista-se - e, por mais que isto possa parecer contraditório, é preciso lutar para conquistá-la, tendo como arma a palavra, a razão: a paz não pode ser imposta, tem de ser trabalhada, ter seu caminho trilhado, pois que a paz é uma bandeira a ser erguida, e não um fuzil a ser disparado.

Trago em mim a bandeira da paz, embora poucos o saibam, e, às vezes, até eu não me dê conta disso. Carrego-a no nome. Frederico, nome de origem prussiana: Friedrich. Friede, substantivo masculino, significa paz; -rich vem do verbo richten, dirigir, conduzir. E é assim, conduzindo a minha paz, que chego a meu primeiro sobrenome: Spada, do italiano, espada. Silva, meu último sobrenome, herança portuguesa, é palavra de origem latina - silva ou sylva,ae - e significa floresta, mata, donde também selva, mas silva é ainda o nome dado à composição poética em que se alternam versos de dez sílabas com versos de seis ou à ode seiscentista - e eis que se explica a poesia que corre em mim.

É engraçado ter no nome uma contradição: sou aquele que conduz a paz e a espada, tal como um jesuíta carregando consigo a cruz e a espada ao levar Deus ao Novo Mundo que a Europa conquistara à época das Grandes Navegações. Tenho comigo a paz e a guerra, a calma e o caos, e desse embate nascem minhas silvas, toda a poesia a que dou vida. Meus versos nascem do caos que sou, e é meu tempo de paz que me permite criá-los.

Vivo o nome que tenho.

Fred Spada



Quarta-feira, Março 17, 2004
 
Não, eu não quero que haja paz em mim. Não quero permanecer estático porque a vida se me revele tranqüila. Não quero fechar os olhos e ver que dentro de mim tudo está como numa casa vazia: cada coisa em seu devido lugar, imóvel, inalterada, apenas a poeira - modo de o tempo dizer-nos que passa - a fazer morada entre as muitas frestas existentes.

Eu quero o desassossego, o caos, a angústia. Quero obstáculos, pedras no meio do caminho - é primeiro tropeçando que se aprende a desviar delas. Quero ter por que chorar, arrebatar-me em nostalgia, em cólera, em alegria. Quero o amor, o ódio. Quero poder tirar do peito, e não da mente, as palavras que jogo no papel - escrever é a primeira sensação de paternidade de um homem -, poder dar às palavras que pronuncio a intensidade que mereçam - não há sinceridade num discurso cujo volume seja sempre o mesmo. Quero ler os livros que me apetecer, conhecer lugares - fincar raízes é deixar-se morrer aos poucos -, criar minhas próprias utopias - o sonho é quem nos leva sempre a dar o primeiro passo, mesmo que não se saiba quando se dará o último. O incômodo, a desordem - é isso o que nos movimenta, é esse o combustível da alma: para viver, não nos basta estar vivos.

A monotonia, a calma, a indiferença, a ordem, podem até conviver conosco - mas têm de ser passageiras. Escreve Camões: "Todo mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades" - só sente verdadeiramente a vida quem a sente de formas diferentes, e, para tal, acomodar-se não é solução. É preciso ousar sempre, dar-se ao que se deseja, desapegar-se do que não é intrínseco ao homem, do que nos torna prisioneiros de nós mesmos.

Repito: eu não quero que haja paz em mim. A paz na Terra, que aqui se quer manifestar - ah, isso é outro assunto...

Fred Spada



Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004
 
Passei as últimas semanas me perguntando sobre o que escrever para postar aqui. Imaginando argumentos mirabolantes, tiradas de humor e sátira, começando um textinho ali, outro acolá e, nada, nada saía. Não vou ser hipócrita dizendo que as idéias não eram interessantes, mas a eloqüência textual me faltava. Mas ainda não acho que era só esse o problema: o tempo parecia se apressar ao me ver sentado tentando escrever. Minhas outras obrigações martelavam meu cérebro impedindo que ele funcionasse enquanto meus compromissos atavam minhas mãos. E a minha responsabilidade quase parava o meu coração, deixando às escuras um processo de cegueira mal acabado.

Mas o grande problema era a minha consciência que, gritando dentro de mim, clamava por um pouco de inconsciência. Somente hoje, depois de muito pensar sem chegar a lugar algum, percebi que não precisava ter pensado. Afinal não há sinceridade maior do que relatar o meu conflito de todo dia. Não que eu precisasse ser sincero, mas creio que essa seja a única forma do início da minha libertação de mim mesmo. Pois que é total inconsciência querer estar inconsciente conscientemente. Ou será que algum homem venceu suas guerras pessoais sem participar das suas próprias batalhas?

É por isso que eu vou lutar. E sei que vou vencer. Pois, embora o cansaço e a vontade de abandonar o posto falem mais alto, sei que nunca mais poderei olhar nos meus olhos caso desista de mim e me sentirei culpado cada dia por não guerrear pela paz. Enquantos meus desejos mais íntimos se esvaem em sonhos vazios, eu viverei para desejá-la: a minha paz.

Léo Muniz



Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
 
Manifesto pela Paz

Eu talvez me manifestasse a favor da paz -
Se soubesse o que ela é.
Eu talvez levantasse bandeiras,
Bradasse aos quatro cantos,
Clamasse por ela como se faz àquele fio de vida
Que se nos escorre por entre os dedos.
Eu talvez, se a tivesse entre os braços,
A agarrasse com tamanha força,
Que a sufocasse ou a tornasse minha.

Mas eu não sei o que é a paz -
Difícil conhecer o que não faz parte de mim.
Como Rimbaud,
"Concluo por achar sagrada a desordem de meu espírito" -
E a desordem, o caos, tudo isso é a negação da paz.
Se a não tenho,
Como experimentá-la, como senti-la, como a perceber ao meu redor?
Não, eu não posso pedir paz! -
Pois que a não conheço.

Inda assim, talvez houvesse algo a fazer.
Ordenar, não o espírito
- que este vive por si, e não à nossa mercê -,
Mas o que à nossa volta existe.
Ordenar, acalentar, acalmar -
E, da ordem, da calma, da constância,
se construísse, enfim, a paz...

Fred Spada



Quarta-feira, Dezembro 24, 2003
 
Antes de postar um texto meu aqui, e aproveitando a data que se aproxima, gostaria de postar um dos mais belos poemas de Caeiro. Um Feliz Natal a todos, e um ótimo 2004!!!!!!

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

(Trecho VIII de "O Guardador de Rebanhos", Alberto Caeiro - heterônimo de Fernando Pessoa.)

Fred Spada



Domingo, Novembro 30, 2003
 
Um poeta, aspirante a médico, e um músico, aspirante a engenheiro, se unem para manifestar ao mundo suas idéias, críticas e opiniões sobre a paz em nossas vidas. Seja bem-vindo!

Léo Muniz



 
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